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Opinião: a pesada lupa da honestidade sobre Rodrigo Caio

Falha em eliminação contra o Cruzeiro levanta associações pejorativas ao gesto de fair play do zagueiro do São Paulo.

Bastou a primeira falha de Rodrigo Caio para o louvável gesto do jogador no jogo contra o Corinthians, na semana passada, virar muleta de uma crítica rasa. "O zagueiro de condomínio praticou o fair play e deu um gol ao Cruzeiro", dizem os haters das redes (anti)sociais. Tão injusto quanto basear toda a análise técnica do defensor de seleção brasileira em um só jogo é associar seus erros à nobre atitude de livrar Jô de um amarelo equivocado.
É bom recapitular: era um clássico com o Corinthians, no Morumbi, em uma semifinal de Paulistão, com placar parcial de derrota do São Paulo por 1 a 0. Contexto que engrandece o corajoso e admirável ato de fazer o certo. Condenado no vestiário durante o intervalo por Rogério Ceni, àquela altura irritado com o segundo gol corintiano marcado aos 47 minutos e contrariado pelo cancelamento do cartão que suspenderia Jô da semifinal deste domingo.
Pois bem. Rodrigo Caio reencontrará o rival na Arena Corinthians, onde deveria ser reverenciado. Apoio, inclusive, que poderia ser puxado pelo próprio Jô. O ônus da atitude nobre, no entanto, será uma pesada lupa da honestidade sobre o zagueiro. Não haverá movimento impune.

Imaginemos os seguintes cenários no clássico. Um equívoco técnico, como o diante do Cruzeiro. Uma possível omissão em determinado lance no qual não tome atitude similar à do primeiro Majestoso. A participação positiva do próprio Jô em uma eventual classificação corintiana. Não importa.

Tudo será analisado com lupa. Tudo à espera de um motivo para cravar na testa de Rodrigo o rótulo de “jogador fair play” de forma pejorativa. Injustamente. É um ser humano e tem o direito de errar. Nada disso, ressalte-se, diminuirá o tamanho do gesto da primeira semifinal.

 

Rodrigo poderia ter se calado como tantos outros. Não estaria errado. Mas decidiu em fração de segundos tomar a atitude que tomou. "Tem a ver com sua índole", definiu o atacante Morato, cuja estreia ousada diante do Cruzeiro surpreendeu positivamente a torcida tricolor.

Não era uma obrigação e ele decidiu por escolha própria, como disse o economista e sociólogo Eduardo Giannetti, em entrevista para a TV Globo. “Agir com os demais, assim como nós esperamos que os outros ajam em relação a nós. É uma regra de ouro. Da boa vida, da boa sociedade”, disse, em determinado momento da conversa.

Pergunto: quem não gostaria de ter uma punição equivocada contra seu time cancelada por um aviso de um adversário?

Rodrigo remou contra a maré do manual de regras boleiras não escritas em lugar algum e seguidas como cartilha pela maioria. Levar vantagem é uma das premissas. Não se pode crucificar quem por consciência bate de frente com o comportamento no "mundo do futebol", para alguns um planeta à parte, para outros um reflexo da sociedade.

Deveríamos, como este que vos escreve, refletir sobre se teríamos a grandeza de tomar a mesma atitude. Se concluirmos que não seríamos capazes de repetir o gesto, poderíamos trocar a crítica por mais elogios a quem de fato merece ser exaltado. Independentemente do que você faria, agradecer ao são-paulino por ajudar a levantar um debate desse tamanho é necessário.

Parabéns e obrigado, Rodrigo Caio.

Fonte

globoesporte.globo.com / Marcelo Hazan
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