Elias Junior - O Número 1 das Notícias

Educação do Pará recebe as piores notas do País

Reforma no Colégio Paes de Carvalho deveria ter sido concluída em junho deste ano.

Luiz Flávio/Diário do Pará

Já se tornou uma triste rotina nos últimos anos: em levantamentos realizados por institutos a nível federal, a educação do Pará aparece entre as piores do país, seja na taxa de evasão, nos índices de repetência, distorção série x idade, entre outros índices. A performance paraense é quase sempre inferior à média nacional. Nos últimos dias, num intervalo de menos de 10 dias, as divulgaçõe de mais dois índices confirmam essa realidade.

Pesquisa sobre os Índices Educação Básica (Ideb), indicador de qualidade da educação básica, formado pelo Saeb (prova de português e matemática aplicada a cada 2 anos) e pelo fluxo escolar (taxa de aprovação/reprovação/abandono), mostra que o ensino médio, quando considerada a rede estadual, responsável por 97% das matrículas nesta etapa, o Pará atingiu o 2º pior resultado do país. A meta estabelecida alunos registraram índice de 2,8. As instituições paraenses também não conseguiram alcançar a meta de 4.8 estabelecida pelo Ideb para os anos finais do ensino fundamental, alcançando apenas 3.3 pontos.

Os resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) 2017 divulgados no final de agosto pelo Ministério da Educação (MEC) comprovam a falência do sistema de educação do Pará. Foi o pior resultado em aprendizagem de alunos do ensino médio.

Na totalidade dos municípios a média foi inferior ao resultado nacional tanto em Língua Portuguesa quanto em Matemática. Os alunos mostraram não possuir conhecimentos de Português. Muito pelo contrário: sofreram queda de 10 pontos negativos na média de aprendizado entre 2015 e 2017.

APRENDIZADO

O nível médio de aprendizado em português dos alunos paraenses, chamado de nível de proficiência dos estudantes, no caso do ensino médio, é de 245.1, o pior do país. Em matemática os estudantes paraenses só não estão em situação pior que os do Maranhão, tendo novamente demonstrado regressão quando comparados resultados de 2015 para 2017, com 8.8 pontos negativos de proficiência média nesses anos.

O educador Yussef Ayan diz que o fracasso da educação pública é multifatorial. “Sem dúvida que o principal fator para isso é que a educação no nosso Estado não foi prioridade. Há muitos anos. Existe a falta de uma formação docente continuada. Não adianta fazer concurso e chamar professores se eles não possuem qualificação. E a remuneração baixa paga a esses profissionais pode justificar um mau desempenho”.

Outra consequência desse quadro é a falta de planejamento. “Muitas escolas detectam que os alunos passam por problemas e não viabilizam um reforço para que esse desempenho melhore. Sem falar na precariedade da merenda escolar servida nas escolas públicas”, afirma.

REFORMA NO PAES DE CARVALHO JÁ DEVERIA TER SIDO CONCLUÍDA

Um exemplo do descaso com a educação é o Colégio Estadual Paes de Carvalho, um dos mais antigos e tradicionais de Belém. Após anos de protestos dos alunos contra a deterioração, o Governo do Estado finalmente iniciou uma reforma no prédio. Só que a obra parece que teve data de início mas não tem para terminar.

De acordo com a placa colocada na fachada do prédio tomado por mato e infiltrações, a obra – no valor de R$ 2.486.901,10 – começou em 20/12/2017, com prazo de 180 dias para acabar. Ou seja, a reforma teria de ter sido concluída no último dia 20/06, mas até agora, nada. Já são mais de dois meses de atraso na conclusão.

CALOR

A estudante Danielly Nascimento de Souza, 18 anos, cursa convênio no Paes de Carvalho, mas entrou no colégio no 1º ano. “A gente sofre muito com o calor nas salas de aula. Pouquíssimos aparelhos de ar-condicionado funcionam. Além do calor tem a fome. Entramos às 7h30 e saímos às 13h sem comer absolutamente nada. Isso é muito ruim. Prejudica nosso aprendizado”, reclama.

Ela diz que quando há merenda acaba rápido porque a quantidade é pouca e muitos ficam sem comer. “Às vezes tem sopa, em outras macarrão com sardinha, mas quando vem é muito pouco”, diz a estudante, que vai fazer vestibular para Psicologia.

Elizandra Monteiro, também com 18 anos, avalia que os professores do Paes de Carvalho são bons e melhores ainda no convênio. “No 1º e no 2º ano o ensino é muito ruim mesmo. As salas que têm ar ficam lotadas com 45, 50 alunos e num calor danado. Quando juntam as turmas chegam a ter mais de 90 alunos. Essa reforma já tá um tempão e nunca acaba. Não é à toa que o nosso Estado tem esses resultados no Ideb”, critica.

SAEB

Os resultados do Saeb mostram que 9 em cada 10 alunos do 3º ano do ensino médio paraense têm nível insuficiente em português e matemática. Entre os estudantes desta etapa de ensino, menos de 1% têm conhecimento adequado nestas disciplinas.

SINTEPP FAZ DOSSIÊ SOBRE SITUAÇÃO PRECÁRIA DE ESCOLAS

O Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Pará (Sintepp) vem fazendo um levantamento da situação caótica de escolas no Pará. “As condições de trabalho dos professores e do ensino têm um peso grande no processo pedagógico”, diz Sílvia Letícia, licenciada da coordenação estadual do sindicato, em Belém. “Não há sequer estrutura para alguns prédios funcionarem. Quando chove a água cai dentro das escolas. Registramos tudo num dossiê que foi encaminhado ao Ministério Público”.

Segundo ela, vários professores  têm de trabalhar em salas lotadas, quentes, sem iluminação. “Fazemos festivais para arrecadar dinheiro para fazer a manutenção das escolas. Tem escola que passa o semestre todo servindo sardinha com macarrão na merenda… Ladrões entram nas escolas, roubam tudo e ainda nos assaltam…Situações como essa se refletem no processo de ensino”.

Ela critica o fato de que as secretarias de Educação adotam medidas que precarizam ainda mais o ensino, quando fecham laboratórios de informática ou reduzem o número de professores dessa área e nas bibliotecas. “Sem falar na ausência de acompanhamento da educação especial nas escolas para acompanhar alunos com determinadas síndromes e que possuem dificuldade no processo de aprendizagem”.

INTERNET

Ela cita um exemplo: a Secretaria de Estado de Educação determinou que os professores da rede façam o preenchimento online dos diários de classe para acelerar o processo de nota dos alunos com resultados bimestrais. Só que a Seduc quer impor um mecanismo sem dar qualquer condição para que os professores o realizem.

“Não temos computadores nas escolas e sequer rede wi-fi, que é básico. Como acessar o diário de classe sem essas ferramentas?”, diz. O Sintepp também encabeçou uma campanha estadual de mobilização contra o que chama de privatização do ensino público através do Sistema de Ensino Interativo (SEI) no lugar do Sistema de Organização Modular de Ensino (Some).

“Muitas escolas foram fechadas no campo para que esse sistema de ensino à distância fosse implementado. Também tentamos impedir o encerramento dos turnos da tarde e noite no colégio Souza Franco, por exemplo. E os resultados do Ideb não são piores graças ao esforço dos professores”, afirma.

Ela lembra que se os professores fossem mais valorizados e tivessem garantidos direitos mínimos o processo de ensino-aprendizagem seria bem melhor. “Estamos há quase 4 anos sem reajuste no salário. O governo Simão Jatene promoveu a retirada de carga horária e isso prejudica o ensino nas escolas”.

Fonte

Luiz Flávio/Diário do Pará
  • Compartilhe
  • Compartilhar no Facebook
  • Compartilhar no Google Plus
  • Compartilhar no Twitter
  • Compartilhar no WhatsApp

Educação do Pará recebe as piores notas do País

Luiz Flávio/Diário do Pará

Já se tornou uma triste rotina nos últimos anos: em levantamentos realizados por institutos a nível federal, a educação do Pará aparece entre as piores do país, seja na taxa de evasão, nos índices de repetência, distorção série x idade, entre outros índices. A performance paraense é quase sempre inferior à média nacional. Nos últimos dias, num intervalo de menos de 10 dias, as divulgaçõe de mais dois índices confirmam essa realidade.

Pesquisa sobre os Índices Educação Básica (Ideb), indicador de qualidade da educação básica, formado pelo Saeb (prova de português e matemática aplicada a cada 2 anos) e pelo fluxo escolar (taxa de aprovação/reprovação/abandono), mostra que o ensino médio, quando considerada a rede estadual, responsável por 97% das matrículas nesta etapa, o Pará atingiu o 2º pior resultado do país. A meta estabelecida alunos registraram índice de 2,8. As instituições paraenses também não conseguiram alcançar a meta de 4.8 estabelecida pelo Ideb para os anos finais do ensino fundamental, alcançando apenas 3.3 pontos.

Os resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) 2017 divulgados no final de agosto pelo Ministério da Educação (MEC) comprovam a falência do sistema de educação do Pará. Foi o pior resultado em aprendizagem de alunos do ensino médio.

Na totalidade dos municípios a média foi inferior ao resultado nacional tanto em Língua Portuguesa quanto em Matemática. Os alunos mostraram não possuir conhecimentos de Português. Muito pelo contrário: sofreram queda de 10 pontos negativos na média de aprendizado entre 2015 e 2017.

APRENDIZADO

O nível médio de aprendizado em português dos alunos paraenses, chamado de nível de proficiência dos estudantes, no caso do ensino médio, é de 245.1, o pior do país. Em matemática os estudantes paraenses só não estão em situação pior que os do Maranhão, tendo novamente demonstrado regressão quando comparados resultados de 2015 para 2017, com 8.8 pontos negativos de proficiência média nesses anos.

O educador Yussef Ayan diz que o fracasso da educação pública é multifatorial. “Sem dúvida que o principal fator para isso é que a educação no nosso Estado não foi prioridade. Há muitos anos. Existe a falta de uma formação docente continuada. Não adianta fazer concurso e chamar professores se eles não possuem qualificação. E a remuneração baixa paga a esses profissionais pode justificar um mau desempenho”.

Outra consequência desse quadro é a falta de planejamento. “Muitas escolas detectam que os alunos passam por problemas e não viabilizam um reforço para que esse desempenho melhore. Sem falar na precariedade da merenda escolar servida nas escolas públicas”, afirma.

REFORMA NO PAES DE CARVALHO JÁ DEVERIA TER SIDO CONCLUÍDA

Um exemplo do descaso com a educação é o Colégio Estadual Paes de Carvalho, um dos mais antigos e tradicionais de Belém. Após anos de protestos dos alunos contra a deterioração, o Governo do Estado finalmente iniciou uma reforma no prédio. Só que a obra parece que teve data de início mas não tem para terminar.

De acordo com a placa colocada na fachada do prédio tomado por mato e infiltrações, a obra – no valor de R$ 2.486.901,10 – começou em 20/12/2017, com prazo de 180 dias para acabar. Ou seja, a reforma teria de ter sido concluída no último dia 20/06, mas até agora, nada. Já são mais de dois meses de atraso na conclusão.

CALOR

A estudante Danielly Nascimento de Souza, 18 anos, cursa convênio no Paes de Carvalho, mas entrou no colégio no 1º ano. “A gente sofre muito com o calor nas salas de aula. Pouquíssimos aparelhos de ar-condicionado funcionam. Além do calor tem a fome. Entramos às 7h30 e saímos às 13h sem comer absolutamente nada. Isso é muito ruim. Prejudica nosso aprendizado”, reclama.

Ela diz que quando há merenda acaba rápido porque a quantidade é pouca e muitos ficam sem comer. “Às vezes tem sopa, em outras macarrão com sardinha, mas quando vem é muito pouco”, diz a estudante, que vai fazer vestibular para Psicologia.

Elizandra Monteiro, também com 18 anos, avalia que os professores do Paes de Carvalho são bons e melhores ainda no convênio. “No 1º e no 2º ano o ensino é muito ruim mesmo. As salas que têm ar ficam lotadas com 45, 50 alunos e num calor danado. Quando juntam as turmas chegam a ter mais de 90 alunos. Essa reforma já tá um tempão e nunca acaba. Não é à toa que o nosso Estado tem esses resultados no Ideb”, critica.

SAEB

Os resultados do Saeb mostram que 9 em cada 10 alunos do 3º ano do ensino médio paraense têm nível insuficiente em português e matemática. Entre os estudantes desta etapa de ensino, menos de 1% têm conhecimento adequado nestas disciplinas.

SINTEPP FAZ DOSSIÊ SOBRE SITUAÇÃO PRECÁRIA DE ESCOLAS

O Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Pará (Sintepp) vem fazendo um levantamento da situação caótica de escolas no Pará. “As condições de trabalho dos professores e do ensino têm um peso grande no processo pedagógico”, diz Sílvia Letícia, licenciada da coordenação estadual do sindicato, em Belém. “Não há sequer estrutura para alguns prédios funcionarem. Quando chove a água cai dentro das escolas. Registramos tudo num dossiê que foi encaminhado ao Ministério Público”.

Segundo ela, vários professores  têm de trabalhar em salas lotadas, quentes, sem iluminação. “Fazemos festivais para arrecadar dinheiro para fazer a manutenção das escolas. Tem escola que passa o semestre todo servindo sardinha com macarrão na merenda… Ladrões entram nas escolas, roubam tudo e ainda nos assaltam…Situações como essa se refletem no processo de ensino”.

Ela critica o fato de que as secretarias de Educação adotam medidas que precarizam ainda mais o ensino, quando fecham laboratórios de informática ou reduzem o número de professores dessa área e nas bibliotecas. “Sem falar na ausência de acompanhamento da educação especial nas escolas para acompanhar alunos com determinadas síndromes e que possuem dificuldade no processo de aprendizagem”.

INTERNET

Ela cita um exemplo: a Secretaria de Estado de Educação determinou que os professores da rede façam o preenchimento online dos diários de classe para acelerar o processo de nota dos alunos com resultados bimestrais. Só que a Seduc quer impor um mecanismo sem dar qualquer condição para que os professores o realizem.

“Não temos computadores nas escolas e sequer rede wi-fi, que é básico. Como acessar o diário de classe sem essas ferramentas?”, diz. O Sintepp também encabeçou uma campanha estadual de mobilização contra o que chama de privatização do ensino público através do Sistema de Ensino Interativo (SEI) no lugar do Sistema de Organização Modular de Ensino (Some).

“Muitas escolas foram fechadas no campo para que esse sistema de ensino à distância fosse implementado. Também tentamos impedir o encerramento dos turnos da tarde e noite no colégio Souza Franco, por exemplo. E os resultados do Ideb não são piores graças ao esforço dos professores”, afirma.

Ela lembra que se os professores fossem mais valorizados e tivessem garantidos direitos mínimos o processo de ensino-aprendizagem seria bem melhor. “Estamos há quase 4 anos sem reajuste no salário. O governo Simão Jatene promoveu a retirada de carga horária e isso prejudica o ensino nas escolas”.

Publicidade